Doris Day: A cantora, muito além da atriz

O mundo perdeu em maio de 2019 a grande atriz Doris Day, mas hoje talvez nem todos saibam (ou lembrem) de seu talento como cantora. O texto abaixo, de Marcelo Maldonado, relembra essa sua incrível faceta:

Doris era uma cantora incomparável. Dona de timbre e afinação impecáveis, sabia como ninguém enunciar a letra de uma canção numa balada (talvez fosse o equivalente feminino do Sinatra nesse campo) ou segurar a barra num tema jazzístico. Para provar seus swing e senso rítmico, basta apresentar o registro de “Just one of those things”, que muita gente aí vai dizer que é mero decalque da célebre gravação da Ella Fitzgerald para a Verve, com o mesmo fraseado e entonações. Seria, sem dúvida, não fosse pelo fato de que gravação Doris Day precede a de Ella por 6 anos…

Eleita uma espécie de “Namoradinha da América”, reinou nos cinemas em musicais dos anos 1950 e comédias românticas dos anos 1960, em que contracenava com o galã Rock Hudson e sustentava convincentemente o rótulo de “virginal” mesmo tendo passado dos 40. Seja como for, no final dos anos 1960, não havia lugar para Doris no status quo cultural americano, no qual a contracultura e o rock’n roll embalavam a juventude e jogavam definitivamente no limbo os valores e símbolos cultuados uma década antes. Restou a ela um lugar na TV, onde manteve-se em alta com seu show durante as décadas de 1970 e 80.

Doris Day

Nunca mais entrou num estúdio. Seu último disco, “Sentimental Journey”, de 1965, traz a regravação da música que dá título ao álbum e que alavancou sua carreira como cantora, duas décadas antes. Em 1997, seu filho, o produtor musical Terry Melcher, recuperou dos arquivos da CBS as fitas de um álbum que Doris lançaria em 1967. Masterizou as faixas e lançou-as como “The Love Album”.

Doris foi uma descoberta tardia e teimosa para mim, assim como Judy Garland. Demorei para me livrar de rótulos preconceituosos que identificavam-nas com o universo gay para, somente então, me dar conta do quanto eram (e são) duas artistas absolutamente dedicadas ao seu mister e plenamente conscientes de suas qualidades como intérpretes. Com a morte de Doris, vai-se a última delas, dessa era de ouro do cinema e da canção.

(Marcelo Maldonado)

Leia também:
Alguns discos – 5 [2012]

Sobre o falecimento:
Doris Day (1922-2019)

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