Tavito (1948-2019)

Tavito

Tavito

Tristeza imensa. Um grande nome nos deixou em 26.02.2019. Para sempre em nossos cotações… faleceu o grande Tavito.

Tavito era o nome artístico de Luís Otávio de Melo Carvalho. Nascido em Belo Horizonte em 26 de janeiro de 1948, foi um grande nome da música brasileira: cantor, compositor, um mestre. Canções compostas por Tavito tornaram-se grandes sucessos, como “Rua Ramalhete” (com Ney Azambuja) e “Casa no Campo” (com Zé Rodrix).

Tavito será velado no cemitério da Vila Alpina, em São Paulo, nesta terça, 26.02.2019, a partir das 23h. A cremação ocorrerá no crematório da Vila Alpina na manhã de quarta, 27.02.2019, a partir das 11 horas. O endereço do cemitério é Avenida Francisco Falconi, 837.

No Wikipedia:

Tavito ganhou seu primeiro violão aos 13 anos. Autodidata, começou a participar de serenatas e festas. Foi companheiro de geração de Milton Nascimento e de outros músicos mineiros, tais como Toninho Horta, Tavinho Moura e Nelson Angelo. Em 1965 conheceu Vinícius de Morais, que apreciou o estilo de Tavito[1] e o convidou a participar de suas apresentações na capital mineira. Mais tarde, participou do conjunto Som Imaginário e no final da década de 1970 seguiu carreira solo. Produziu discos de alguns artistas (Marcos Valle, Renato Teixeira, Selma Reis e Sá & Guarabyra).

No Dicionário Cravo Albin:

Aos 13 anos de idade, ganhou seu primeiro violão. Autodidata, logo em seguida começou a participar de serenatas e a atuar em festas em sua cidade natal, além de compor suas primeiras canções. É companheiro de geração de Milton Nascimento e de outros músicos mineiros, como Toninho Horta, Tavinho Moura e Nelson Angelo. Em 1965, conheceu Vinicius de Moraes, que se encantou com a sua performance ao violão.

Foi, então, convidado pelo poeta para acompanhá-lo em alguns shows pela cidade de Belo Horizonte (MG). Cursou o 1º ano de Desenho Industrial na Universidade Mineira de Arte, mas abandonou os estudos decidindo-se pela profissão de músico. Mudou-se, então, para o Rio de Janeiro, passando a trabalhar como professor de violão.

Veja aqui uma lista das grandes composições de Tavito:
http://dicionariompb.com.br/tavito/obra

Tristeza imensa.

Update 13h40 – No Globo Online:
Compositor Tavito Carvalho morre em SP

Update 13h45 – No portal R7:
Morre Tavito, de Rua Ramalhete, vítima de câncer aos 71 anos

No site Revista Fórum:

Várias canções falam sobre os Beatles e seu tempo. Nenhuma delas, no entanto, foi tão certeira quanto “Rua Ramalhete”, do mineiro Luís Otávio de Melo Carvalho, conhecido por todos como Tavito, em parceria com Ney Azambuja.

Em sincronia perfeita entre letra e música, a melodia se desenvolve a partir de uma introdução notável, dentro de um clima que lembra sempre, aqui e acolá, o som do famoso quarteto, com laivos de sofisticação muito superiores à propalada beatlemania, que me perdoem os fãs.

A letra, repleta de imagens aparentemente simples, é conduzida pela mesma matéria a que foram relegados os Beatles, a saudade, ou seja, a rua e seus ramalhetes, o olhar de rapina sobre as moças do colégio de freiras, os bailes e as canções. Tudo, enfim, saudades.

E é no dia em que Tavito vira saudades que me voltam os relatos de amigos e conhecidos seus. Nunca o conheci pessoalmente, mas tudo o que vinha da sua direção era uma brisa boa, de bom humor, talento e eterna disposição pra vida.

O primeiro de todos é o cantor e compositor santista Sonekka Lazarini, amigo responsável por anunciar a sua inesperada e indesejada morte. “Você precisa conhecer o Tavito, vocês iam se dar bem, ele é um cara excepcional” e por ai afora.

Como que para corroborar a doçura do compositor, vem outro colega e amigo, Luiz Cláudio de Santos, conhecido por ser capaz de tirar de ouvido qualquer canção, contar do seu encontro com o Tavito: “Cara, ele me ensinou a harmonia da “Rua Ramalhete” inteira, acorde por acorde.

Desde então, fico a imaginar qual outro compositor do seu porte que teria essa generosidade.

E lembrar Tavito é, de alguma forma, voltar no tempo da saudade, no tempo da lendária banda Som Imaginário, do qual fez parte; os três álbuns inesquecíveis que gravaram; o fabuloso disco “Milagre dos Peixes ao Vivo”. Tavito era, enfim, de um outro tempo que não cabia no calendário.

Leia mais clicando aqui.

Da coluna de Mauro Ferreira:

Belo flash romântico de amor de juventude, Rua ramalhete integrou o melhor álbum solo do artista, Tavito (1979), lançado há 40 anos. A canção seria regravada pelo autor em Tudo (2009), álbum editado há dez anos.

(…) O último disco solo do artista, A casa no começo da rua (2016), foi lançado há três anos com compilação dos maiores sucessos de um compositor que criou músicas como Água e luz (Tavito e Ricardo Magno, 1984) – música-título de álbum lançado por Amelinha há 35 anos – e Começo, meio e fim (Tavito, Ney Azambuja e Paulo Sérgio Valle, 1979), canção do antológico álbum de 1979 popularizada pelo grupo Roupa Nova em 1991.

A passagem de Tavito pelo mundo terreno da música se encerra hoje. Mas ficam imortalizadas as canções deste compositor que sonhou um mundo melhor e o propagou através da deusa música.

Leia a coluna completa clicando aqui.

Parceria com Luhli, também falecida recentemente:

Texto de Alexandre Lemos:

Vaidade. Todas as pessoas, todos nós somos vaidosos em alguma medida. Acima dessa medida, os artistas costumam ser ainda mais vaidosos, além de exibicionistas, naturalmente. O que digo não é necessariamente uma crítica, mas uma observação.

Ele não. Ele não era vaidoso. Parecia estar tão consciente do próprio talento que não fazia questão de se envaidecer dele. Dos muitos que conheci, foi o artista com menos necessidade de afirmação.

Sabia tudo de música, tudo. Era capaz de criar arranjos vocais em 5 minutos, com a sofisticação que a canção solicitasse. Anos antes do ecletismo tropicalista já apreciava a canção popular sem preconceitos ou dogmas. Amava os afro sambas de Baden e Vinícius tanto quanto amava o iê iê iê de Lennon e McCartney. Amava os Beatles. E ria junto com a gente quando o chamávamos de Tavitles. Às vezes, de implicância, dizia a ele que achava “Yesterday” a música mais brega do mundo. Ele dava de ombros. E ria.

Tinha um jeito próprio de compor. Perseguidor da simplicidade, não economizava, porém, nos acordes invertidos e nas modulações que viraram a marca registrada dos primórdios do rock rural. Ah, e os acordes com cordas soltas, ele amava os acordes com cordas soltas. Com muita razão, o Sonekka batizou esse estilo dele de Tavito’s Classics. “Rua Ramalhete” e “Casa no Campo” são Tavito’s Classics. Era preguiçoso pra escrever versos, mas dominava a prosa como poucos. Era delicioso ler seus textos, teria sido um grande cronista se tivesse enveredado por esse caminho.

A primeira vez que tive notícia dele foi num antigo festival da Globo em que o Som Imaginário defendeu “Feira Moderna”. Esse primeiro LP do Som Imaginário marcou minha geração. A canção “Sábado”, que ele passou a incluir nos seus shows depois da retomada artística, era um hino que descrevia a mudança das festinhas de final de semana que começavam a trocar a dança pelas rodas de violão. Foi de tanto ouvir esse disco que me veio a paixão pelo violão de 12 cordas que ele tocava tão bem, a tal “guitarra de 12 cordas” de “Hoje ainda é dia de rock”, canção que o Zé Rodrix fez em homenagem a ele.

Quando Elis gravou “Casa no Campo”, tudo pareceu natural, até plantar e colher o sal com as mãos. Foi essa canção que me fez passar minha adolescência viajando para cidades do interior, visitando pastos ao amanhecer e colhendo cogumelos que horas depois virariam chá. Foram muitos litros de chá ao som de músicas fundamentais, e nesse tempo já havia surgido o trio Sá, Rodrix & Guarabyra. Ele e o trio sempre foram, na minha cabeça, a versão musical dos Três Mosqueteiros e D’Artagnan.

Eu e ele nos aproximamos muito depois disso, há menos de 20 anos. Eu ainda morava em Cabo Frio e ele ainda morava em São Conrado. Um dia, por e-mail, me mandou uma melodia pra que eu botasse letra. Não era um Tavito’s Classic, era uma toada bem brasileira, bem MPB. Fiz a letra na mesma hora, num fôlego só. Li, reli, achei uma merda. Passei um mês fazendo outras letras praquela melodia, mas nada me agradava. Ele me escreveu estranhando minha demora e eu acabei enviando a primeira letra que tinha feito. Pra minha sorte, ele adorou. Batizamos de “Igual ao Mar”. Dentro do repertório dele, essa canção passou a fazer de um grupo de composições que ele costumava deixar para a voz de intérpretes convidados. Ao falar delas, ele dizia que “são canções que eu canto em silêncio”.

Nessa época, eu e ele éramos autores exclusivos da EMI. De lá nos veio a encomenda de uma canção pra dupla Chitãozinho & Xororó. Fizemos uma guarânia e enviamos. A dupla não gravou e não nos deu sequer uma resposta. Ele passou a cantar a guarânia, primeiro em encontros do Caiubi, depois nos shows. Resolveu gravar ele mesmo, num CD intitulado “Tudo”, que também é nome de outra parceria nossa. A tal guarânia, batizada de “Embora”, alçou outros voos depois disso, indo parar no CD e no DVD do Renato Teixeira com o Sérgio Reis, além de ter sido gravada também pelo Daniel. Foi a canção mais conhecida de nossa parceria.
Fizemos algumas outras canções, poucas, que seguem inéditas. Fizemos até jingles juntos, sendo que no quesito jingle ele era também mestre, rei e professor. Estivemos muitas vezes juntos, cantamos muitas vezes juntos em muitos palcos. Não posso dizer com certeza se ele me considerava um amigo, mas é fato que nos queríamos bem.

Nossa última cantoria foi em 2015. Por várias razões, numa semana crucial em minha vida. A meu convite, ele foi dar uma canja no Terças Folk, evento inventado por mim e que rolava no Brasileria, da Julia Rodrix. Foi uma noite mágica, amigos cantando juntos, eu, ele, Sonekka, Felipe Câmara, Bezão e meu filho Danilo.

Ainda mantivemos contato depois disso, ele gravou um vídeo de apoio ao crowdfunding que fiz com minha ex-mulher e acho que ainda chegamos a nos rever pessoalmente, só não lembro onde.

Nos afastamos aos poucos, com um golpe entre nós. Víamos o mundo de forma diferente, e optamos pelo silêncio mútuo que preservou nossa amizade, ainda que à distância. Mas sempre achei que voltaríamos a compor juntos, mais cedo ou mais tarde.

Não vai mais acontecer. Tavito morreu. Uma estupidez. Dele, vou guardar a lembrança do bom humor e das risadas que demos juntos. Pra começar a matar a saudade, fica esse vídeo, parceria dele com Luhli, dois gênios fazendo genialidades. É isso, mestre, quase tudo vale menos que uma boa gargalhada. Vá em paz e luz.

“Marcas do que se foi” é uma canção muito popular dos anos 70 composta por Ruy Maurity, Tavito e Paulo Sérgio Valle, clássico gravado pelo grupo Os Incríveis no final de 1976:

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